Custo de Capital como o Novo Filtro Decisivo do M&A Brasileiro. Cost of Capital as the New Gatekeeper of Brazilian M&A.
Com a Selic a 15,00%, o custo de capital não é uma condição de fundo para M&A no Brasil — é o principal filtro pelo qual se determina a viabilidade das transações. With the Selic at 15.00%, cost of capital is not a background condition for Brazilian M&A — it is the main filter through which transaction viability is determined.
O pano de fundo monetário do fim de janeiro deixa pouco espaço para ambiguidades: no Brasil de hoje, o custo de capital não é uma condição de fundo para M&A; é o principal filtro pelo qual se determina a viabilidade das transações.1 Com a Selic mantida em 15,00% e vigente a partir de 29 de janeiro, compradores continuam operando em um ambiente no qual a alavancagem é cara, as estruturas de financiamento são mais restritas e os patamares de retorno são materialmente mais difíceis de superar do que em ciclos mais frouxos. Isso, por si só, ajuda a explicar por que o mercado permanece ativo, mas altamente seletivo.
O efeito prático dos juros elevados vai além de uma redução geral de apetite. Custos de financiamento mais altos diminuem o universo de ativos capazes de suportar dívida, comprimem os múltiplos de valuation que compradores conseguem justificar e empurram transações para estruturas que preservem maior proteção contra perdas.2 A análise da Chambers sobre o mercado brasileiro de private equity em 2025 foi explícita nesse ponto: juros persistentemente elevados mantiveram o financiamento caro, pressionaram os múltiplos de valuation para baixo e estimularam maior uso de earn-outs, financiamento pelo vendedor e crédito privado. Isso é mais do que um ajuste técnico. Significa que preço, desenho do processo e estrutura de capital se tornaram inseparáveis.
É por isso que o custo de capital se tornou o verdadeiro filtro decisivo do M&A brasileiro. Um comprador ainda pode gostar da lógica estratégica de um negócio, admirar seu perfil de crescimento e enxergar ganhos operacionais após o fechamento.2 Mas, se o pacote de financiamento não sustentar a aquisição no retorno exigido, esse interesse não se converterá em preço da forma esperada pelos vendedores. Em um ambiente de juros mais baixos, a distância entre estratégia e finanças pode se estreitar quase automaticamente. No ambiente atual, isso não acontece.
Essa realidade aparece de formas diferentes entre as classes de compradores. Compradores estratégicos com balanços mais fortes ou geração interna de caixa frequentemente mantêm maior capacidade de agir do que patrocinadores financeiros ou empresas menores que dependem mais intensamente de dívida externa.2 O resultado não é uma ausência generalizada de demanda, mas um mercado em que a demanda está distribuída de maneira mais desigual. Alguns ativos continuam atraindo capital porque estão em setores nos quais escala, visibilidade regulatória ou sinergias operacionais são suficientemente convincentes para justificar movimento apesar dos juros mais altos. Outros ainda podem ser estrategicamente atraentes, mas enfrentam dificuldade para construir um caminho financiável até o fechamento.
Para vendedores, isso cria uma disciplina importante que nem sempre é intuitiva. Valuation já não deve ser entendido apenas como função de múltiplos precedentes ou do entusiasmo em torno de uma categoria.2 Cada vez mais, ele é função de quão financiável é o ativo nas condições atuais. O negócio suporta alavancagem? Tem qualidade de lucro recorrente? O perfil de fluxo de caixa é estável o suficiente para que um comprador consiga subscrevê-lo com confiança? O modelo operacional reduz ou amplia o risco de execução? Essas perguntas importam mais quando o custo dos recursos é elevado, porque erros são penalizados mais rapidamente.
Isso também ajuda a explicar por que o mercado brasileiro permaneceu resiliente em 2025 sem se tornar eufórico. Comentários mais amplos sobre o mercado em 2025/2026 confirmam que a atividade transacional se manteve apesar de juros chegando a 15% ao longo do ano, da ausência de liquidez via IPOs e de preocupações macroeconômicas persistentes.3 Mas resiliência não deve ser confundida com facilidade. O que ela realmente sugere é que compradores continuaram agindo onde a necessidade estratégica era forte, ao mesmo tempo em que se tornaram mais rigorosos sobre o que perseguiam e como financiavam. O mercado não ignorou o custo de capital; adaptou-se a ele.
Para o middle market brasileiro, essa distinção é especialmente importante. Muitas empresas lideradas por fundadores e famílias ainda entram em conversas de M&A como se preço fosse fundamentalmente um exercício de narrativa. No ciclo atual, isso raramente basta.2 Compradores ainda podem pagar bem por ativos de qualidade, mas precisam conseguir explicar a economia da transação internamente e, muitas vezes, também a credores ou comitês de investimento. O ônus, portanto, passa para as empresas capazes de demonstrar durabilidade de resultados, maturidade operacional, intensidade de capital razoável e um caminho de criação de valor pós-fechamento que não seja puramente aspiracional.
Há ainda uma consequência estrutural adicional. Quando o custo de capital permanece elevado por tempo suficiente, ele muda o comportamento do mercado para além do ciclo imediato de juros. Compradores ficam mais disciplinados na forma de pensar alocação de risco e valuation.2 Vendedores passam a perceber que preço não é a única dimensão de uma transação que merece negociação. Soluções de financiamento se tornam mais criativas, e alguns ativos que antes poderiam depender de financiamento externo abundante passam a parecer mais atraentes como aquisições complementares para plataformas mais fortes. Nesse sentido, a disciplina atual imposta pelo custo de capital pode deixar uma marca mais duradoura no M&A brasileiro do que o próprio nível da taxa.
A conclusão, portanto, não é simplesmente que juros elevados são “ruins para negócios”. Isso seria simplista demais. A melhor conclusão é que juros elevados agora determinam como as transações são feitas, quais compradores permanecem competitivos, quais setores ainda sustentam valor e que tipos de estruturas são necessários para aproximar interesse estratégico e realidade executável.12 No fim de janeiro de 2026, o custo de capital não está apenas influenciando o M&A brasileiro. Ele está definindo os termos do jogo.
The late-January monetary backdrop leaves little room for ambiguity: in Brazil today, cost of capital is not a background condition for M&A; it is the main filter through which transaction viability is determined.1 With the Selic maintained at 15.00% and effective from 29 January, buyers remain in an environment where leverage is expensive, financing structures are more constrained and return thresholds are materially harder to clear than in looser cycles. That alone is enough to explain why the market remains active but highly selective.
The practical effect of high rates goes beyond a general reduction in appetite. Higher funding costs reduce the range of assets that can support debt, compress the valuation multiples that buyers can justify and push transactions toward structures that preserve more downside protection.2 Chambers’ 2025 review of Brazil’s private-equity market was explicit on this point: persistently high interest rates kept financing expensive, put downward pressure on valuation multiples and encouraged greater use of earn-outs, vendor financing and private credit. That is more than a technical adjustment. It means pricing, process design and capital structure have become inseparable.
This is why cost of capital has become the real gatekeeper of Brazilian M&A. A buyer may still like the strategic logic of a business, admire its growth profile and see operational upside after closing.2 But if the financing package cannot support the acquisition at the required return, that interest will not convert into price in the way sellers expect. In a lower-rate environment, the distance between strategy and finance can narrow almost automatically. In the current one, it does not.
That reality is showing up differently across buyer classes. Strategic acquirers with stronger balance sheets or internal cash generation often retain more room to act than financial sponsors or smaller corporates that depend more heavily on external debt.2 The result is not a market-wide absence of demand, but a market in which demand is more unevenly distributed. Some assets continue to attract capital because they sit in sectors where scale, regulatory visibility or operational synergies are compelling enough to justify movement despite higher rates. Others may still be strategically attractive, but struggle to generate a financeable path to closing.
For sellers, this creates an important discipline that is not always intuitive. Valuation is no longer best understood simply as a function of precedent multiples or category excitement.2 It is increasingly a function of how financeable the asset is under today’s conditions. Can the business support leverage? Does it have recurring earnings quality? Is the cash-flow profile stable enough for a buyer to underwrite with confidence? Does the operating model reduce execution risk or expand it? These questions matter more when the cost of funds is high because mistakes are punished more quickly.
This also helps explain why the Brazilian market stayed resilient during 2025 without becoming euphoric. The broader 2025/2026 market commentary confirms that deal activity held up despite rates reaching 15% during the year, the lack of IPO liquidity and persistent macro concerns.3 But resilience should not be mistaken for ease. What it really suggests is that buyers continued to act where strategic necessity was strong, while becoming more rigorous about what they pursued and how they financed it. The market did not ignore the cost of capital; it adapted around it.
For the Brazilian mid-market, this distinction is especially important. Many founder-led and family-owned companies still approach M&A conversations as if price is fundamentally a narrative exercise. In the current cycle, that is rarely enough.2 Buyers can still pay well for quality assets, but they must be able to explain the economics internally and often to lenders or investment committees as well. The burden therefore shifts toward companies that can demonstrate earnings durability, operational maturity, reasonable capital intensity and a post-closing value-creation path that is not purely aspirational.
There is an additional structural consequence. When cost of capital remains high for long enough, it changes market behavior even beyond the immediate rate cycle. Buyers become more disciplined in how they think about risk allocation and valuation.2 Sellers become more aware that price alone is not the only dimension of a deal worth negotiating. Financing solutions become more creative, and some assets that might once have relied on exuberant external funding begin to look more attractive as add-ons to stronger platforms. In that sense, today’s cost-of-capital discipline may leave a longer-lasting imprint on Brazilian M&A than the rate level itself.
The conclusion, therefore, is not simply that high rates are “bad for deals.” That would be too simplistic. The better conclusion is that high rates are now governing how deals get done, which buyers remain competitive, which sectors can still support value and what kinds of structures are needed to bridge the gap between strategic interest and executable reality.12 In late January 2026, cost of capital is not merely influencing Brazilian M&A. It is setting the terms of engagement.
FontesSources
- Série histórica da Selic do Banco Central: Selic mantida em 15,00% em 28 jan. 2026, vigente de 29 jan. 2026 a 18 mar. 2026. Banco Central historical Selic series: Selic held at 15.00% on 28 Jan 2026, effective 29 Jan 2026 to 18 Mar 2026. www.bcb.gov.br ↗
- Chambers Private Equity 2025 — Brasil: juros elevados comprimiram a alavancagem e os múltiplos de valuation; estimularam earn-outs, empréstimos do vendedor e crédito privado. Chambers Private Equity 2025 — Brazil: high rates compressed leverage and valuation multiples; encouraged earn-outs, vendor loans and private credit. practiceguides.chambers.com ↗
- CGM / Lexology (3 fev. 2026): M&A e IED no Brasil permaneceram resilientes em 2025 apesar dos juros elevados e da ausência de janela de IPOs; M&A serviu como rota importante de liquidez e crescimento. CGM / Lexology (3 Feb 2026): Brazilian M&A and FDI remained resilient through 2025 despite high rates and the absence of an IPO window; M&A served as a key liquidity and growth route. www.lexology.com ↗